Sobre dúvidas e certezas

18/11/2020
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“O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas...” Bertrand Russel

Por Paulo Andreoli (*)

A História nos instrui que grandes transformações são, em geral, precedidas por grandes eventos. Alguns deles traumáticos, como as guerras, as pandemias ou catástrofes naturais. Os saltos qualitativos da humanidade, promovidos por descobertas evolutivas ou científicas, também têm essa dinâmica propulsora de mudanças. Foi assim com o fogo, com o uso da roda nos primórdios da civilização, com a descoberta da força expansiva do vapor, que transformou os processos industriais e rompeu as fronteiras do desenvolvimento por meio das ferrovias. O mesmo se poderia dizer de outros momentos históricos disruptivos, como o surgimento da energia elétrica, da lâmpada, da fissão nuclear e, mais recentemente, da Internet.

Evento histórico de abrangência global, a pandemia da Covid-19 certamente trouxe, e ainda trará, muitas transformações. O isolamento social, em si, implica mudança de hábitos e na forçosa reflexão sobre eles. Talvez muitos se deram conta de que não faz mais sentido despender horas no trânsito para se deslocar para o escritório. Percebeu-se que é possível ser produtivo e focado mesmo estando em casa. Os gestores, nas empresas, também reconheceram a eficiência dos seus times conectados virtual e remotamente, talvez trabalhando mais do que no escritório, intercalando alguns momentos com a família e outros dedicados ao trabalho. Todos, de certa forma, fizeram as contas e concluíram que, no final do dia, estão produzindo mais para si e para suas empresas.

Induzidos pela emergência da pandemia, os processos de interação digital tiveram sua aceitação e utilização significativamente aceleradas. Recursos tecnológicos já disponíveis antes da Covid-19, que eram pouco explorados – por inércia ou preconceito – assumiram rapidamente papel preponderante para conectar pessoas, facilitar compras, acessar serviços e gerar oportunidades. O Zoom, o Microsoft Teams já existiam antes da pandemia. Assim como o banco digital, os sites de compras, o delivery, a telemedicina, o ensino à distância, as lives já estavam disponíveis – todas elas ferramentas tecnológicas acessíveis, porém pouco acessadas. O dia-a-dia hoje não pode ser concebido se não contemplarmos tais recursos como auxiliares inerentes à continuidade do normal.

Com a tecnologia, vieram e ainda virão os benefícios do trabalho remoto. Mas também vão aumentar ainda mais os riscos. Fragilidade frente aos ataques cibernéticos encontraram espaço fértil para avançar nesse período em que todos, mais e menos preparados, se viram diante da necessidade de uma rápida adaptação às soluções digitais para atender ao isolamento social. As empresas e indivíduos já estavam e ficarão ainda mais vulneráveis. A proteção contemplada por cibersecurity será, sem dúvida, uma das prioridades das empresas na busca permanente e sistemática de proteger informações sensíveis num ambiente em que as interações envolvem milhares de funcionários em casa.

Isolamento social, com sérias restrições às interações físicas, também implicou na redução da atividade econômica, no desemprego, na asfixia financeira, no cash flow negativo e, para alguns setores, no futuro incerto de suas atividades. Mas, de todas as transformações já perceptíveis, sem dúvida a digitalização é a que já se configura como aquela que se consolidou tanto na esfera individual quanto na de negócios. Para sobreviver e crescer, pessoas e empresas deverão conviver inexoravelmente com a tecnologia digital no seu cotidiano.

Porém, nem todos. O universo do trabalho não é apenas composto por profissionais que, com seus laptops, conseguem interagir e produzir em casa. Há aqueles com níveis de escolaridade mais baixos, e que exercem suas atividades necessariamente em ambientes físicos, operando ou consertando máquinas, revolvendo concreto nas obras, limpando os trilhos do metrô, dirigindo transportes coletivo e tantas outras funções essenciais. São milhões, no Brasil, que dependeram da ajuda governamental para sobreviver. Além disso, para eles, certamente o futuro, com interações sociais restritivas, tentará minimizar suas atividades físicas - sob o pretexto de protegê-los e à sociedade - substituindo-as por máquinas que possam dirigir, limpar, construir. Esse talvez seja outro dos impactos relevantes por vir. É certo que, no curto prazo, as economias tratarão de cuidar dos efeitos imediatos, como o desemprego, a queda do crescimento e da renda e as formas de manter os negócios girando. A médio e longo prazos os novos hábitos adquiridos com a pandemia farão com que uma massa de trabalhadores seja substituída por máquinas, softwares e inteligência artificial.

Se a rapidez provocada pelas sucessivas inovações tecnológicas já vinha provocando transformações frenéticas nos hábitos de consumo, na mobilidade urbana, nas formas de interação social, na adequação das empresas e dos negócios, a pandemia acelerou e consolidou forçosamente as novas práticas. Há alguns anos, o World Economic Forum divulgou uma pesquisa com milhares de CEO’s e constatou que eles sofriam de uma nova síndrome, denominada FOBO – Fears of becoming obsolete. O medo de eles próprios estarem obsoletos e o medo de que seus negócios e seus produtos se tornassem rapidamente obsoletos. Essa é, atualmente, uma preocupação mais constante e acentuada.

Hoje, mais do que antes, todos os negócios deverão ser revisitados sob a ótica da transformação digital para suprirem os novos hábitos e demandas causadas por um trauma econômico-social e, mais do que tudo, para readequarem os negócios atuais aos novos tempos. Para alguns segmentos os efeitos causados pela pandemia se converteram em uma oportunidade ímpar para a consolidação e crescimento. Mas, para outros, um momento crítico para repensarem seu  modelo de negócio e se transformarem para não definharem no mercado.

A onda de transformações atingiu também o setor público que se viu diante da necessidade de fazer chegar auxílio financeiro a milhões de brasileiros, muitos dos quais sem conta bancária e sem registro da sua informalidade social nos bancos de dados governamentais. O mesmo se pode dizer dos serviços públicos no âmbito da saúde, já deteriorados, que se viram obrigados a uma força tarefa de capacitação e logística para administrar uma demanda nacional por unidades de terapia intensiva. O despreparo para enfrentar o “tsunami” da pandemia pegou a todos de surpresa.

Neste contexto, o que se pode já aferir para o futuro? Uma das poucas certezas é a de que as empresas deverão ressurgir com novos formatos para gerir seus profissionais, adotando modelos híbridos de trabalho e intercalando momentos home office com presença parcial nos escritórios compartilhados. Certamente os processos de avaliação de desempenho merecerão novos critérios, bem como as métricas de performance. As áreas de recursos humanos precisarão rever seus processos e critérios para a seleção, retenção e gestão dos talentos remotos e virtuais.

O confinamento em casa, com a família, descortinou, em alguns casos, antigas fissuras nos relacionamentos. Há registros formais do aumento da depressão e, porque não dizer, de desentendimentos que resultaram em agressões. Como estará a saúde mental no retorno às atividades presenciais? Aferir e administrar essas novas interrogações estará na lista das prioridades imediatas daqueles que cuidam dos talentos - os quais constituem o principal ativo das empresas.

O “core business” deverá ser reavaliado e adequado aos novos tempos e às novas demandas. Compliance e auditorias estarão diante do desafio de aferir resultados e processos à distância. Como ainda prevalece nas empresas um certo grau de incerteza quanto ao futuro, as previsões poderão se basear em premissas mais subjetivas para estimar perdas na realização dos seus ativos ou até no estabelecimento de critérios para provisionamento de custos e contingências.

Para ambos, favorecidos ou afetados, é necessária uma autoavaliação diante das mudanças já percetíveis e o exercício de uma inteligência antecipativa que lhes permita ler os sinais do que ainda está por vir. Nesse sentido, as empresas de consultoria estratégica terão especial relevância, no suporte consistente à leitura das mudanças necessárias para a continuidade e crescimento dos negócios num ambiente pós-pandêmico. Por sua capilaridade de experts em diferentes setores e abrangência global, certamente as empresas de consultoria terão agilidade e profundidade para apoiarem as tomadas de decisões estratégicas. Fusões, aquisições, incorporações serão também impulsionadas pela reavaliação dos negócios pós-Covid.

O isolamento social e a introspecção forçada por ele, também fortaleceu a convivência virtual por meio das mídias sociais e atiçou os movimentos de massas. Na busca por propósitos, as sociedades fortaleceram seus laços na defesa de causas. O senso de autoproteção, cuidando de si e do mundo em perigo, se traduziu por ações em prol da sustentabilidade, do meio ambiente, dos animais, da vida. A BlackRock, maior gestora de recursos do mundo, expressou em carta aberta sua opção por projetos sustentáveis. O acordo Mercosul-Comunidade Europeia passa pelo crivo das queimadas recentes no Brasil. Cada vez mais a conectividade social reforçada pelo isolamento em escala global assumirá um papel político preponderante em todas as geografias, impondo às empresas o cuidado por sua reputação, permanentemente fragilizada pela fiscalização intrépida do indivíduo conectado às redes sociais e, portanto, ao mundo.

As empresas e grandes corporações também experimentarão, no ambiente dos negócios, as questões geopolíticas que vieram com a pandemia. No dia-a-dia podemos optar por nos expressarmos sobre o  coronavírus ou um “vírus chinês”, traduzindo, nesta escolha de palavras, o provável alinhamento econômico com os Estados Unidos ou com a China. Talvez ainda seja cedo para definirmos se iremos para um lado ou para o outro. Mas o embate virá. Talvez, no Brasil de hoje, a opção pela vacina do Instituto Butantan possa ser interpretada como uma opção ideológica por ter sido desenvolvida pelos chineses.

Esses são alguns dos desafios e transformações que começam a modificar o mundo pós-pandêmico – um mundo de novos hábitos, de novos processos, de novas exigências, de novos riscos e, seguramente, de novas e promissoras oportunidades. Mas apesar das tendências já perceptíveis, este é um momento, em outras palavras, propício às dúvidas.

(*) Paulo Andreoli, CEO da MSL Andreoli, Chairman da MSL para a América Latina e membro do board global. A MSL é parte do Publicis Groupe.

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